Lembranças: macio
aroma de saudades
Aluna: Larissa
Vitória Marcacini
Desde
a infância, fui acostumado a levantar-me bem cedinho... Logo que o galo
cantava, pulava da cama, pois sua voz era tão aguçada que me ardia os ouvidos.
Ainda pela madrugada, acompanhava minha mãe, Carolina, até o curral, onde eu
amarrava as pernas das vacas para ela tirar-lhes o leite, que caía diretamente
no balde, produzindo uma espuma branca como a geada. Naquela época, não
dispúnhamos do sistema de ordenha, como nos dias atuais. Eu ficava sempre
observando aquele gesto manual, aparentemente simples, porém de infinita
grandeza, pois era com o leite, ainda bem quentinho, que eu matava minha fome
matinal, acompanhado por um saboroso bolo de fubá, cuidadosamente preparado no
dia anterior.
Assim
que terminávamos essa tarefa, eu e o tempo sentávamos no mourão da porteira,
para assistirmos ao espetáculo da radiante luz solar. Ele, o tempo, era
testemunha de que o sol sorria para mim, devido à nossa grande amizade; nós
víamos o nascer do sol por detrás dos montes, aquecendo os vales e alegrando a
vegetação.
Depois
de cumprimentar meu eterno amigo, eu e meus irmãos íamos, a pé, para a escola,
pois ainda não havia o transporte escolar. Diariamente, percorríamos um caminho
longo e, para nos distrairmos, conversávamos sobre as matérias escolares e
lembrávamos dos “causos” assustadores que arrepiavam até os fios de cabelo,
contados por nossos vizinhos, naquelas prosas gostosas das tardes de verão.
Isso me trazia a sensação de que o percurso era menor.
Na
escola, sempre me criticavam, pois sou canhoto, razão pela qual minha
professora me obrigava a escrever com a mão direita. Isso era motivo de gozação
por parte de meus colegas. Como me sentia constrangido!
Terminada
a aula, retornávamos para nossa casa, situada no local denominado Paca. Apesar
de ser uma construção grande, conservava uma simplicidade singular, típica das
cidades do interior. Ela era construída de pau-a-pique, com sete cômodos, todos
de assoalho. Suas tábuas brancas e largas revelavam o zelo que mamãe tinha com
a higiene do local.
Na
cozinha, o almoço nos esperava. Em nossas refeições, sempre havia carne de
porco que era conservada mergulhada na gordura dentro de uma lata. (Nós não
tínhamos geladeira ainda.) Da lata, mamãe retirava os pedaços e fritava-os numa
panela de ferro, no fogão a lenha. Aquele cheiro delicioso aguçava-me o
apetite. Aos domingos não podia faltar o frango caipira bem cozidinho, servido
com polenta para garantir o sabor da comida mineira. Todos os alimentos que
consumíamos vinham do próprio sítio. Ele sempre foi o nosso ouro!
A
essa altura, papai também já havia enfrentado o frio cortante da madrugada e
estava cuidando da lavoura para garantir o sustento familiar. Lá em casa,
mamãe, depois de realizar os afazeres domésticos, dirigia-se para o tear, no
qual tecia – com fios de lã que ela mesma preparara – nossas cobertas e mais
algumas para vender. Quando sobrava tempo, ainda produzia um polvilho pálido,
cujo aroma azedo parecia penetrar para sempre em minhas narinas. Era com ele
que aquela figura materna fazia deliciosos biscoitos para o café da tarde.
Quando
chegava o final do dia, brincava com meus irmãos com bola de borracha que,
quando batia forte, ardia como se estivéssemos degustando uma pimenta. Também,
fazia peteca com palha de milho e penas das aves. Ah! No jogo de pé-de-galinha,
era sempre o campeão.
Naquele
tempo, ainda não possuíamos rádio e, nas tardes de domingo, eu e meus irmãos
íamos à casa do Sr. João Sabino, homem rico, que compartilhava conosco o seu
rádio a pilha. Lá, ouvíamos o futebol. Isso valia a pena! Foi somente mais
tarde, em 1960, quando conseguimos comprar o nosso rádio. Foi uma festa!
Passávamos o dia ouvindo música sertaneja de raiz, jogos de futebol, novelas e
até piadas. Apesar de ter perdido o meu
pai quando ainda era pequeno, mamãe doou seu sangue pelos filhos, sustentou-os
sozinha e garantiu-me uma boa educação. E, hoje, quando me lembro das histórias
vividas, sinto apenas o aroma da saudade e o orgulho de ter nascido em terras
divisanovenses.
(Texto baseado na
entrevista feita com o Sr. Francisco Martins Figueiredo, 76 anos.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário