Nossa Escola

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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Alunos do 3º ano A e B presentes na 5ª Feira da FUMESC em Machado















Texto da aluna Larissa Vitória Marcacini,semifinalista em nível estadualda 3ª olímpiada de Língua Portuguesa


Lembranças: macio aroma de saudades

 

Aluna: Larissa Vitória Marcacini

 

            Desde a infância, fui acostumado a levantar-me bem cedinho... Logo que o galo cantava, pulava da cama, pois sua voz era tão aguçada que me ardia os ouvidos. Ainda pela madrugada, acompanhava minha mãe, Carolina, até o curral, onde eu amarrava as pernas das vacas para ela tirar-lhes o leite, que caía diretamente no balde, produzindo uma espuma branca como a geada. Naquela época, não dispúnhamos do sistema de ordenha, como nos dias atuais. Eu ficava sempre observando aquele gesto manual, aparentemente simples, porém de infinita grandeza, pois era com o leite, ainda bem quentinho, que eu matava minha fome matinal, acompanhado por um saboroso bolo de fubá, cuidadosamente preparado no dia anterior.

            Assim que terminávamos essa tarefa, eu e o tempo sentávamos no mourão da porteira, para assistirmos ao espetáculo da radiante luz solar. Ele, o tempo, era testemunha de que o sol sorria para mim, devido à nossa grande amizade; nós víamos o nascer do sol por detrás dos montes, aquecendo os vales e alegrando a vegetação.

            Depois de cumprimentar meu eterno amigo, eu e meus irmãos íamos, a pé, para a escola, pois ainda não havia o transporte escolar. Diariamente, percorríamos um caminho longo e, para nos distrairmos, conversávamos sobre as matérias escolares e lembrávamos dos “causos” assustadores que arrepiavam até os fios de cabelo, contados por nossos vizinhos, naquelas prosas gostosas das tardes de verão. Isso me trazia a sensação de que o percurso era menor.

            Na escola, sempre me criticavam, pois sou canhoto, razão pela qual minha professora me obrigava a escrever com a mão direita. Isso era motivo de gozação por parte de meus colegas. Como me sentia constrangido!

            Terminada a aula, retornávamos para nossa casa, situada no local denominado Paca. Apesar de ser uma construção grande, conservava uma simplicidade singular, típica das cidades do interior. Ela era construída de pau-a-pique, com sete cômodos, todos de assoalho. Suas tábuas brancas e largas revelavam o zelo que mamãe tinha com a higiene do local.

            Na cozinha, o almoço nos esperava. Em nossas refeições, sempre havia carne de porco que era conservada mergulhada na gordura dentro de uma lata. (Nós não tínhamos geladeira ainda.) Da lata, mamãe retirava os pedaços e fritava-os numa panela de ferro, no fogão a lenha. Aquele cheiro delicioso aguçava-me o apetite. Aos domingos não podia faltar o frango caipira bem cozidinho, servido com polenta para garantir o sabor da comida mineira. Todos os alimentos que consumíamos vinham do próprio sítio. Ele sempre foi o nosso ouro!

            A essa altura, papai também já havia enfrentado o frio cortante da madrugada e estava cuidando da lavoura para garantir o sustento familiar. Lá em casa, mamãe, depois de realizar os afazeres domésticos, dirigia-se para o tear, no qual tecia – com fios de lã que ela mesma preparara – nossas cobertas e mais algumas para vender. Quando sobrava tempo, ainda produzia um polvilho pálido, cujo aroma azedo parecia penetrar para sempre em minhas narinas. Era com ele que aquela figura materna fazia deliciosos biscoitos para o café da tarde.

            Quando chegava o final do dia, brincava com meus irmãos com bola de borracha que, quando batia forte, ardia como se estivéssemos degustando uma pimenta. Também, fazia peteca com palha de milho e penas das aves. Ah! No jogo de pé-de-galinha, era sempre o campeão.

            Naquele tempo, ainda não possuíamos rádio e, nas tardes de domingo, eu e meus irmãos íamos à casa do Sr. João Sabino, homem rico, que compartilhava conosco o seu rádio a pilha. Lá, ouvíamos o futebol. Isso valia a pena! Foi somente mais tarde, em 1960, quando conseguimos comprar o nosso rádio. Foi uma festa! Passávamos o dia ouvindo música sertaneja de raiz, jogos de futebol, novelas e até piadas.   Apesar de ter perdido o meu pai quando ainda era pequeno, mamãe doou seu sangue pelos filhos, sustentou-os sozinha e garantiu-me uma boa educação. E, hoje, quando me lembro das histórias vividas, sinto apenas o aroma da saudade e o orgulho de ter nascido em terras divisanovenses.

 

(Texto baseado na entrevista feita com o Sr. Francisco Martins Figueiredo, 76 anos.)